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O perfil presidencial é essencial, não a experiência

Quarta-feira, 05.01.11

 

E aqui continuo as minhas reflexões sobre as próximas eleições presidenciais. Nem sei explicar muito bem este meu interesse neste ritual cíclico da República. Preferia a continuidade do Rei, preparado para tal e com a legitimidade própria da continuidade simbólica (e aqui simbólica tem um valor mais rico, de valores estruturantes e de uma identidade cultural, as coisas essenciais da permanência). Mas não tendo ainda o Rei de volta, resta-nos um Presidente.

Talvez as duas razões principais deste meu interesse (até acompanhei entrevistas e debates), sejam:

- a nossa precária situação actual a todos os níveis, o que nos torna muito vulneráveis (e um Presidente pode atenuar ou reforçar as dificuldades previstas);

- o facto do sistema se ter começado a revelar (ups!, o sistema tornou-se visível!) e o próprio cidadão comum ter começado a perceber quem é quem no sistema em que ele, cidadão comum, não conta, a não ser para alimentar o seu estatuto e o seu nível de vida (votando e pagando impostos, isto é, enquanto eleitor e contribuinte).

 

Como é que um Presidente pode contribuir para atenuar as dificuldades? Pela sua influência, pela sua intervenção adequada, pelo que afirma, pela sua convicção interior, pela liderança de ideias e de uma atitude, pela empatia com os cidadãos que representa. A sua influência também pode ser exterior, é diferente ter alguém que percebe os tempos de alguém que está dessincronizado noutra onda. Precisamos de um perfil presidencial para o país, numa situação aflitiva e vulnerável, e para o séc. XXI.

 

Em relação ao sistema, o pior que lhe poderia ter acontecido foi tornar-se visível. Enquanto se podia colar ao regime e aos seus valores, à democracia, aos interesses nacionais, tudo lhe corria de feição. De qualquer modo, o séc. XXI convive mal com sociedades secretas ou pactos de classe, de elites que se mantêm no poder muito tempo, sem outra legitimidade a não ser a sua arrogância cultural, e a subserviência dos restantes. Mas se não tivessem puxado demasiado a corda, ter-se-iam aguentado mais uns anitos. 15 anos de socialismo foram-lhe fatais. E não estou a contar com os 10 anos de cavaquismo, que também contribuíram.

 

Vivemos, de facto, tempos socio-politicamente interessantes. Agora, pondo por segundos de parte a nossa desgraça nacional (conjuntura e lideranças políticas no poder), reparem bem no que está a suceder: as pessoas comuns, digamos assim, estão a abrir os olhos. Foi preciso ver o país afundar-se em dívidas externas, as pessoas à porta das fábricas e empresas fechadas, a grande debandada migratória, conterrâneos a passar fome, para acordar. Enquanto a desgraça não lhes bateu à porta, deixaram-se embalar pela grande mentira e a grande ilusão. Mas agora começaram a ver o que até então não viam ou não queriam ver: há um sistema organizado, uma elite protegida, acima da lei universal, acima do escrutínio público, que vive à sua custa, enquanto eleitor e contribuinte. Directa ou indirectamente, porque há a informação privilegiada, portas que se abrem, créditos que se desbloqueiam, leis com excepções que se asseguram, etc. etc.

 

People know... people know... diz o nosso herói em Thunderheart, quase no final daquela saga de índios despojados das suas terras para reservas áridas e inférteis, mas onde se descobrira urânio. Estamos mais ou menos nessa parte da história, colocaram-nos a pão e água como os índios, estragaram-nos a escola, como os índios, já se passa fome, como os índios, e ainda nos vêm pedir batatinhas na sua sofreguidão voraz, querem sugar o que pouco que resta: os impostos, o IVA, o corte cego do abono de família, a conta da EDP, o preço dos combustíveis, o buraco do BPN, as público-privadas que aí vêm, as excepções na administração pública e nas empresas públicas, e ainda se fala no TGV, etc. etc.

O filme acaba com a revelação do sistema, os suits, o FBI, os que pretensamente defendem o povo, mas que apenas defendem o sistema, a organização do poder. A partir daí, tornou-se muito mais difícil ao sistema manter a exploração de urânio e arranjar bodes expiatórios entre os índios. Muito gosta o sistema e o poder, organizado de forma corporativa, de segredinhos e de bodes expiatórios. Vive, aliás, nessa cultura, de pactos mútuos, de uma confiança baseada no interesse comum e na chantagem implícita. Isto dava mesmo um filme... mas prefiro este paralelismo com o Thunderheart. Até porque gosto muito deste nome que mistura trovão e coração.

 

 

Só mais um ponto para reflexão: Um dos argumentos republicanos preferidos é precisamente o de qualquer cidadão se poder candidatar e vir a ser eleito Presidente. Uma perspectiva muito poética e democrática, não acham? Pois não é nada assim que as coisas se passam.

Ontem, na Grande Entrevista de Judite de Sousa a Fernando Nobre, ficámos a saber das dificuldades colocadas à partida a qualquer candidato-cidadão português que tenha a pretensão de se candidatar à Presidência:

- enquanto os candidatos apoiados por partidos políticos podem receber donativos de empresas sem um limite fixado, os candidatos independentes só podem receber donativos de particulares até ao montante de 24 mil e tal euros;

- enquanto os candidatos apoiados por partidos políticos estão isentos de IVA, os candidatos independentes pagam IVA.

Onde está a tal equidade de que se gabam? A tal igualdade de condições na linha de partida da corrida? Não existe.

O jogo está viciado à partida para defender o sistema. O sistema não brinca em serviço. Protege-se. O candidato com mais condições de ser eleito já foi escolhido pelo sistema. Portanto, este é mais um argumento republicano democrático que cai por terra.

É preciso, de facto, uma grande dose de loucura e uma grande coragem para correr o risco de uma candidatura independente. Mas, como disse Fernando Nobre ontem, esta é uma oportunidade única de ver um cidadão na Presidência. E que talvez ainda passem muitos anos até um outro cidadão arriscar concorrer.

Bem, com o seu perfil, dificilmente voltaremos a ver um candidato independente. Se ao menos não tivesse ficado colado a Mário Soares logo na primeira entrevista com Miguel Sousa Tavares... Surgiu de imediato a lógica anti-Alegre, que condicionou a sua candidatura. Ontem tentou mostrar-nos que a sua iniciativa é pessoal, que o seu percurso de liderança de equipas em circunstâncias muito adversas, e algumas mesmo de situações-limite, o prova. Este argumento baseado no percurso pareceu-me bastante fiável: a realidade fala sempre por si. E a situação actual do país é de emergência. Outra condição que me parece ter acabado por atenuar esse primeiro equívoco é ter tido o apoio de pessoas comuns, cidadãos comuns, voluntários. Talvez porque as sondagens o tenham subvalorizado, a sua candidatura perdeu interesse estratégico... Quem ganhou foi o próprio candidato que agora pode, de facto, afirmar de forma inequívoca, a sua independência.

 

 

Voltando ao perfil presidencial, aqui vão algumas reflexões a que me fui dedicando num outro cantinho: HELP!, E o mundo mudou mesmo em quinze dias!, A agendinha do Professor Marcelo, E sobre as presidenciais não digo mais, Porque é que a direita não tem candidato presidencial?

 

 

E um desejo de 2008, que se poderia realizar em 2011, se a vida real imitasse a ficção científica (snif): Para um "novo cidadão" um "novo político".

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:20

Como será governar com o actual Presidente mas, em vez de inerte, activo?

Terça-feira, 04.01.11

 

Não sei o que deva temer mais: se a inércia do Presidente nestes 5 anos, se a sua prometida "magistratura activa". Agora? A quem se está a dirigir? À direita que não se revê na sua candidatura? Aos partidos do centro-direita?

 

Como será governar com o actual Presidente mas, em vez de inerte, activo? E activo como? Em que sentido?

Para já, se esteve impassível durante a derrocada do país, o que poderá fazer agora depois da destruição?

E ao observar, impávido e sereno, as escolhas erradas de um governo, e pior, a mentira generalizada, não poderá ser legitimamente considerado cúmplice do desastre?

 

O que foi fazer para aquele lugar, afinal? Foi apenas uma questão de estatuto, sou o Presidente de todos os portugueses? Não é o Presidente o último recurso, a derradeira garantia, da defesa da democracia e do regime? Então, e a nossa soberania não entra nessa fórmula? Os mais indefesos e vulneráveis do povo português, de que diz ser Presidente, não têm aí lugar? Como diz Medina Carreira, sem economia não há democracia.

Só o vimos reagir quando lhe tocaram nos seus preciosos poderes. E agora, em campanha eleitoral. O que mostra, para já, a dimensão da sua verdadeira motivação original.

 

Seguidamente, como será a vida de um PM não socialista, com o actual Presidente, mas desta vez activo? Que já não tem nada a perder, porque já não há eleições pela frente? E ainda por cima, representando o sistema no que tem de pior, a cultura corporativa? Se isto não são boas perspectivas para o cidadão comum, o que paga a factura e alimenta as "elites políticas", também não é nada promissor para os partidos de direita.

 

E finalmente, como será governar com o actual Presidente no contexto de pobreza generalizada, dificuldades de todo o género, a afectar sobretudo as crianças e os idosos, os mais vulneráveis, e as famílias, sobretudo as numerosas?

Se nunca revelou a mínima empatia com os mais desprotegidos de uma democracia de plástico, mas apenas se emocionou com os casos de sucesso? Nesse aspecto, revelou muitas semelhanças, no perfil, com o actual PM. Embevecidos com o sucesso, esquecendo os excluídos do sistema.

Se nunca percebeu que o seu lugar implica muito mais do que assinar documentos ou receber personalidades na salinha de visitas presidencial? Se nunca entendeu a abrangência do lugar que ocupa, a nível social e cultural? Se nunca viu as possibilidades que o seu lugar lhe abria, de influência a vários níveis da nossa vida colectiva?

 

Se não esteve à altura dos desafios que vivemos de 2006 a 2010, o caminho governamental para a desgraça já expresso no OE 2008, também não está à altura dos desafios que iremos enfrentar de 2011 em diante. Até porque não revela perceber os desafios essenciais das lideranças do séc. XXI: informação, rapidez, flexibilidade, eficácia, empatia, colaboração, comunicação em rede.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:59

A música e a vida

Domingo, 02.01.11

 

Hoje sobrevoei várias cenas do meu percurso com o Tiny Cities dos Sun Kil Moon. O álbum é recente, mas transporta-me sempre para esses dias cheios de sol, aquela claridade, aquela sensação de ausência de limites ou barreiras. É essa a magia da música. É muito visual e emocional. Por isso funciona tão bem em cinema.


Parece que este álbum foi inspirado numa travessia de Espanha. Há melodias que nos são familiares, talvez essa seja uma das razões. E depois há a viola, sempre presente. Desde criança que gosto de ouvir os trovadores modernos à viola, seja de que país forem. Cresci com estes sons, o dedilhar, e as vozes límpidas e poéticas. Há também uma tonalidade à anos 70, os anos da simplicidade original, voltar às origens, à rebeldia inicial.


Mesmo voltando à claridade única desses anos mágicos, em que senti pela primeira vez quem era, a minha identidade essencial, a minha energia vital, há sempre alguma coisa que mudou, que se reorganizou, que se reestruturou, uma espécie de suspiro quieto, e tudo volta ao equilíbrio, ao silêncio. É essa ligação que não podemos perder, à nossa síntese, a tudo o que permanece. A música vem lembrar-nos essa ligação. Quando a agitação exterior nos vier desestabilizar ou distrair, é a música que nos traz de volta ao essencial.

 

 


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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:52








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